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Raiz Cultura blog! ajuda a resgatar a cultura de raiz e a ancestralidade do nosso povo!

Ayahuasca e sua ancestralidade.Part I

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“…celebrar a essência da vida, sentir a novidade…
…é dentro da floresta virgem q eu vim encontrar o contato com a realidade dessa verdade.
….Que ela possa ser um portal para o meu ser em essência.
..onde os homens se ajudam, onde a caridade tem vez, um novo modelo de comunidade”

Frase do site da Santa Casa de Cura,uma corrente que trabalha com o Santo Daime.

Gostaria de agradecer aos leitores do Raiz Cultura,pelas perguntas enviadas em outro artigo e muitos pedidos para a construção dessa matéria.

Um assunto que agrada a todos aqui do blog,já foi motivos de muitos e-mails ,historia e Mitos dessa doutrina amazonica,construimos um artigo,cuja a fonte do artigo é o site do Neip ( Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos) da Universidade de São Pauloconsultamos nosso amigo Ramom Pires que em São Paulo faz parte da União do Vegetal que é uma outra corrente da doutrina do Santo Daime .

 

Segundo o Céu do Ceara organização que trabalha com a doutrina do Santo Daime que tem seu instrutor o Padrinho Fernando Guanabara explicaem seu site que o Santo Daime é uma doutrina religiosa de inspiração indígena e tem como base o uso ritual da Ayahuasca, uma bebida de origem inca. Surgiu no estado brasileiro do Acre, no início do século XX, tendo como fundador o lavrador e descendente de escravos Raimundo Irineu Serra, também conhecido como Padrinho ou Mestre Irineu. Foi ele que recebeu a revelação de uma doutrina de cunho cristão, a partir da bebida Ayahuasca (vinho das almas), por nós denominada Santo Daime,mais antes de se aprofundar no Santo Daime vamos saber um pouco sobre a bebida e suas origens na humanidade.

 

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As plantas psicoativas têm sido utilizadas há cinqüenta mil anos pela humanidade, em diferentes culturas e épocas, sendo objeto de culto e reverência ou de demonização. A paixão que despertam revela-se, em primeiro lugar, pela própria maneira de nomeá-las.

Alguns pesquisadores têm criticado o termo científico alucinógeno, por sugerir uma percepção falsa e ilusória da realidade. Uma opção adotada tem sido enteógeno, originário do grego antigo, com o significado de “Deus dentro” ou “o que leva o divino para dentro de si”. Outra, mais ligada à contracultura, é psicodélico, “aquilo que revela o espírito ou alma”.

Alguns preferem utilizar termos nativos, como é o caso de plantas professoras, expressão característica do vegetalismo peruano, ou adotar denominações que sublinhem as dimensões neurofarmacológicas comuns às várias substâncias, como a proposta por Michael Winkelman, plantas psicointegradoras, aquelas que “integram os hemisférios direito e esquerdo do cérebro”.

As diversas populações que fazem uso dessas substâncias consideram, em geral, que elas são habitadas por um espírito, uma “mãe”, um “dono” — com o qual podemos nos comunicar e aprender. Elas seriam, portanto, um espírito-planta. Um traço comum aos variados contextos é a crença de que, por meio dessas substâncias, é possível estabelecer contato com o mundo espiritual, com os seres divinos, e transcender as fronteiras da morte.

Historicamente, o uso de tais psicoativos tem sido associado ao reforço da identidade étnica, à promoção da coesão social, à transmissão de valores culturais, à produção artística, à morte simbólica do ego, ao autoconhecimento, à resolução de conflitos sociais, à guerra, à feitiçaria, à caça, ao poder político e cósmico, à metamorfose em animais e à divinação, entre outros.

Desde o período Paleolítico Superior (entre 75.000 a 15.000 anos a.C) que nossos ancestrais já utilizavam certas plantas para fins medicinais e como meio de acesso ao reino dos espíritos, através do feitio das chamadas Bebidas Sagradas.

O impacto do seu uso na estruturação da psique e da cultura humana é muito maior do que se pode imaginar. Hoje em dia essas plantas são chamadas enteógenas, que significa: capaz de suscitar a experiência de Deus em si mesmo. Seus compostos psico-ativos produzem um estado de expansão de consciência. Num contexto espiritual apropriado geram experiências de êxtase místico. Nesses estados de consciência é que os santos, os avatares e os profetas lançaram o alicerce para muitas das grandes religiões de massa dos nossos dias.

Dizem que, periodicamente, a força espiritual que assiste e modela este planeta muda de lugar, o que explicaria os súbitos ciclos de decadência e de florescimento de culturas e tradições religiosas. Foi assim que se sucederam os cultos do Soma (uma bebida sagrada que possui efeito similar à Ayahuasca) no período pré-védico, através da Civilização do Vale do Indo ou Dravida (por volta de 7.000 a.C) da Índia antiga, onde o Xamanismo Ancestral já estava em evidência e que através do Soma, passou a fazer uso dessa Bebida Sagrada para conectar-se com o Grande Espírito. Da Índia, por volta de 4.500 a.C, quando o subcontinente indiano passou a sofrer diversas mudanças climáticas causadas em parte pelo movimento de placas tectônicas no decorrer de vários séculos, fazendo com que grande parte dessa civilização migrasse para outras regiões do planeta, levando todo o conhecimento deste povo, foi que a primeira bebida sacramental, o Soma, tomou novos rumos e disparou para o mundo, alimentando assim os Mistérios de Eleusis na Grécia Antiga, as tradições cristãs gnósticas e esotéricas, os yogues da Índia e do Tibet, a Cabala da Espanha Islâmica, os Incas e Astecas até chegar aos povos e culturas remanescentes do Éden original. Situadas na selva sul-americana, foi lá onde o Grande Espírito parece ter semeado grande parte da sua farmacopéia enteógena.

 

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A intensidade da experiência mística desencadeada a partir destas plantas, usadas desde milênios, tem sido relatada e estudada com cada vez maior freqüência. O seu uso desperta na consciência a sensação inefável de fazer parte da Totalidade. Esta não é uma abstração e sim uma verdade que se encontra nas camadas mais profundas do nosso ser. Vista através desse tipo de experiência, a Natureza não é apenas um conjunto de solo, paisagens, flora e fauna e sim a forma visível de Gaia, o ser biológico espiritual planetário. A forma pela qual essa compreensão ficou mais preservada é o xamanismo. Ele é, segundo a já clássica definição de Eliade, aquelas técnicas arcaicas do êxtase, a primeira forma sistematizada pelo homem para acessar o desconhecido mundo dos espíritos. É profundamente excitante que este mesmo xamanismo esteja novamente em destaque em nossos dias. Desde as incursões às selvas sul-americanas de alguns botânicos e etnógrafos do século passado, que a comunidade científica vem demonstrando um crescente interesse pela contribuição que as plantas psico-ativas podem dar, tanto para estabelecer uma cartografia da consciência, quanto para a solução dos grandes enigmas da espécie humana.

 

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Na Amazônia Ocidental Brasileira o Xamanismo religioso dos pajés sempre esteve associado ao uso das plantas enteógenas. Uma das mais importantes delas é sem dúvida a Ayahuasca, em torno da qual convergem muitas tradições dos índios e caboclos da região.

 

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A Folha Chacrona ( A Rainha)
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O Cipó Jagube

Ayahuasca e sua Ancestralidade :

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São diversas as lendas de origem do sacramento conhecido como Daime, Vegetal ou Huasca. A UDV, por exemplo, alega que foi o Rei Salomão que celebrou a união do cipó (mariri) com a folha (chacrona). O mais interessante é que outras culturas também afirmam a presença de Salomão na América do Sul. Tanto é assim que o rio Solimões teria recebido esse nome em homenagem a ele. Contudo, é outra a história que pretendo contar aqui, longa e exótica.

Na mitologia dos índios Kashinawá, no Alto do Bode, subindo o Rio Jordão, no Acre, a origem do cipó Runipan (Ayawaska) tem um destaque especial, sua narrativa é rica em detalhes, onde os animais se transformam em gente e vice-versa.

Yo buié Nawa Tarani, um antepassado Kashinawá, foi à mata um dia procurar genipapo para pintar o corpo de seu filho recém-nascido.
Na beira do lago, ele encontrou um genipapeiro coberto de frutas. Subiu na árvore carregada e começou a sacudir para fazer cair as frutas.
De repente, ele ouviu um barulho debaixo dele. Viu então uma anta a roer as frutas do chão. Divertindo-se, ele ficou quietinho em cima da árvore, só olhando.

Ora, tudo começou a ficar estranho quando a anta, após ter roído algumas frutas, começou a jogar elas no meio do lago, gritando:
– Toma aqui esses genipapos do meu roçado!
Após alguns minutos, uma jovem saiu do fundo d’água, carregando um tibungo cheio de caiçuma de banana. A anta estava escondida atrás do tronco de uma árvore. A jovem mulher se aproximou, tomou pé na terra e chamou:
– Amigo, onde está você? Aonde se escondeu?
Saindo do seu esconderijo, a anta disse:
– Tô aqui! E então bebeu da bebida que a mulher ofereceu.
Em seguida, a linda mulher se entregou à anta e eles se amaram. Do seu esconderijo, Yo buié Nawa Tarani não podia acreditar no que via.

A mulher voltou para o fundo do lago e a anta para a mata. Yo Buié Tarani desceu da árvore, juntou ainda algumas frutas caídas e voltou para sua aldeia. Chegando em casa, deu as frutas para sua mulher, sem contar nada. Não quis comer a comida oferecida por ela. Em seguida, deitou em sua rede, onde ficou por muito tempo com os olhos abertos e perdidos. Ele não podia esquecer o que havia visto no lago. Como se estivesse enfeitiçado. Sua mulher ficou preocupada, mas ele disse estar um pouco doente.

No dia seguinte bem cedo, Yo Buié juntou suas armas como se fosse caçar, e saiu na direção do lago. Passando debaixo do genipapeiro, ele juntou algumas frutas, roeu elas com os dentes e jogou no lago dizendo:
– Toma aqui os genipapos do meu roçado!
Depois correu e se escondeu atrás de uma árvore. E aconteceu que a linda mulher apareceu, como na véspera, com seu tibungo de caiçuma. Saiu for a d’água, colocou o tibungo na terra e chamou:
– Amigo, onde está você? Aonde se esconde?
– Estou aqui, respondeu Yo Buié, e jogou-se sobre ela, tentando pegar à força. Mas ela se defendeu e eles rolaram pela terra até derrubarem a bebida.
De repente, a mulher se transformou numa cobra e enrolou-se no corpo dele. Mas ele não se deixou pegar. Ela tentou ainda escapar de Yo Buié, transformando-se num cipó espinhoso. Mas ele não a soltava de jeito nenhum. Então ela se transformou em aranha, serpente, fogo, mas sem nenhum resultado. Yo Buié não largava dela. E na confusão dessas mudanças, a cabeça da mulher reapareceu e perguntou:
– Quem é você? E o que deseja de mim?
Mas ele não respondeu, pois estava segurando a presa com os dentes.
A mulher então voltou a sua forma humana até os peitos, mas continuou sem ter a resposta de Yo Buié. Resolveu então tomar forma inteiramente humana, da cabeça aos pés.
– Bem, disse. Agora diga-me o que quer de mim. Por que não me solta para conversarmos feito gente?
Yo Buié explicou então que tinha visto ela e a anta fazendo amor e que a partir daí passou a desejar ela para mulher.
– Por que pegou-me pela força em vez de falar claro comigo? Olhe, você me fez derramar toda a caiçuma.
Então ela pegou o que restava dentro do tibungo e fez ele beber, enquanto carinhosamente livrava-se dele. Depois eles repousaram um pouco e acariciando Yo, a mulher perguntou:
– Quem é você? Tem mulher e filhos?
– Não, mentiu ele. Não tenho família.
– Então, por que você não fica comigo? Eu serei sua mulher e teremos muitos filhos. Levarei você comigo para minha casa.
Ela colheu em seguida todos os tipos de ervas e fez delas um suco. Depois derramou nos olhos, orelhas e em todas as juntas do corpo de Yo buié Nawa Tarani.
Então a mulher disse: – Segure nos meus cabelos!
E os dois mergulharam no lago. Chegando lá no fundo, encontraram uma roça de bananeiras e uma casa onde a mulher vivia com seus parentes. Eram as cobras e serpentes, habitantes do lago.

 

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Porém, antes de entrar na aldeia, a mulher disse a Yo Buié:
– Esconda-se aqui e espere-me, que eu vou prevenir meus parentes de sua chegada e explicar a eles que você é meu marido. Não tenho medo que voltarei logo.
O homem ficou só, ouvindo os barulhos estranhos e assustadores que saíam das águas do lago. Eram as cobras gigantes agitando-se ao redor da mulher. Rapidamente ela apareceu, tomou Yo Buié pela mão e apresentou-o como seu marido na grande casa dos habitantes do lago. E deste dia em diante Yo Buié e a mulher-cobra passaram a viver juntos como marido e mulher.

Algum tempo depois, as cobras e serpentes do lago resolveram tomar cipó. Yo Buié perguntou a sua mulher se ela também iria tomar cipó.
– É claro, disse ela.
– E eu, poderei também?
– Não, por que você terá muito medo. Você verá cobras e serpentes e pensará que elas querem te devorar. Então você gritará como um louco. Não se meta com isso. São nossos costumes e não os seus.
Mas Yo Buié insistiu tanto que terminaram por aceitar ele no círculo de cobras para tomar o cipó.

Logo nas primeiras mirações, Yo Buié se pôs a gritar – Socorro, as cobras querem me engolir!

 

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Na mesma hora sua mulher se transformou em cobra, enrolou-se carinhosamente nele, aproximou a cabeça de sua orelha direita e cantou docemente. A sua sogra aproximou-se e fez o mesmo, cantando em sua orelha esquerda. Enfim, seu sogro se enrolou nos três e, balançando seu rosto na frente de Yo Buié, acompanhou também a canção.

Um dia quando eles repousavam em suas redes, as frutas do genipapo roídas começaram a cair dentro do lago – a anta estava de volta.
Como a jovem mulher não respondeu a seus apelos, a anta entrou n’água, mergulhou e permaneceu debaixo d’água muito tempo, como aliás faz até hoje. Assim mergulhada, a anta chegou bem perto da roça. A sogra de Yo Buié foi então a seu encontro explicar que sua filha não era mais livre. Pediu para a anta parar de procurar sua filha, e a anta não insistiu mais.

A vida seguiu muito feliz debaixo das águas. Os esposos tiveram quatro filhos: dois meninos e duas meninas.
Neste mesmo lago vivia Iskin, um pequeno peixe encouraçado. Um dia, Iskin foi nadando até um igarapé formado pelas águas do lago e encontrou na margem a antiga mulher de Yo Buié. Esta acreditava estar viúva e não parava de reclamar a falta de seu marido. Com tantos filhos para criar, ela sobrevivia com a ajuda de seus parentes e amigos da aldeia.
Nesse dia ela tinha ido ao igarapé para tentar pegar algum peixe com as mãos, como fazem as mulheres. E enquanto pescava, chorava alto, contando detalhe por detalhe de sua desgraça. Nisso, ela quase pegou Iskin pela barbatana de couro que protégé sua cabeça.
Ah! Gritou Iskin, jogando seu corpo para trás. E se ele conseguiu escapar da mulher, foi com o preço de deixar sua barbatana presa entre os dedos dela.
Quando ela se afastou, Iskin voltou ao lago. Ele não estava nada satisfeito com o que tinha ouvido. Foi direto onde estava Yo Buié para jogar sua raiva sobre ele.
– O que é que você está fazendo aqui no lago? Gritou Iskin. Você nunca nos falou de sua outra família que está morrendo de fome na terra. Eu encontrei sua mulher. E foi ela quem arrancou minha barbatana! E talvez você nem saiba, mas ela e seus filhos da terra estão todos morrendo de fome, vivendo com a ajuda dos amigos. E você aqui, dando de comer às pessoas que não são nem da sua espécie.
Yo Buié então abaixou a cabeça e compreendeu todo o mal que tinha feito à sua família da terra.
Mas como farei para sair daqui? Suspirou ele. Se eu não posso nem mais viver ao ar livre?
– Eu vou te ajudar, disse Iskin. Mas prometa para mim que não dirá nada a ninguém.
– Prometo, disse Yobuié.
Então Iskin colheu muitas ervas e jogou suco nas orelhas, olhos e em todas as juntas do corpo de Yobuié. Depois, levou ele até as margens do lago. Em seguida, Iskin abandonou o lago e foi viver no leito de um rio.

Quando Yobuié chegou à sua aldeia, foi logo recebido com espanto de alegria por todos. – Eu pensava que você estava morto há muito tempo! Disse sua mulher.
– Não, eu não estava morto. Foram as cobras que me raptaram e me prenderam entre elas. Hoje é que consegui fugir. Esconda-me porque tenho medo delas virem me buscar.
Yobuié pendurou sua rede no ponto mais alto da casa e foi dormir meio assustado.
Então as águas do lago começaram a se agitar e transbordaram em ondas que iam uma a uma inundando a aldeia.
As cobras apareceram na superfície para chamar Yobuié. Como ele não aparecia, sua família do lago terminou por voltar para o fundo das águas que por fim baixaram ao nível normal.
Era a família das cobras que desta vez estava triste e com dificuldades, sentindo a falta de Yobuié.

Depois de algum tempo escondido lá em cima em sua rede, Yobuié resolveu ir caçar para ajudar a sua família da terra, que sentia fome. Pegou seu arco e flecha e se arrumou para sair. Sua mulher, com medo, fez todo o esforço para ele desistir da idéia.
– Não tenha medo, dizia Yobuié.
E ele partiu para caçar. A primeira caça que avistou foi um pássaro de crista vermelha. Atirou uma flecha, mas o pássaro voou. A flecha foi então cair na água a dois metros da margem do lago. E Yobuié resolveu ir buscar de qualquer maneira.
Logo que pôs os pés n’água, deu de cara com uma de suas filhas cobras – Você aqui?
Mas sua filha não respondeu. E com muita raiva perguntou – por que você abandonou minha mãe, meus outros irmãos, meus avós e eu?
E como seu pai, de cabeça baixa, não deu resposta, ela gritou:
– Já que é assim, nós vamos comer você todinho, papai.
E a filha cobra atacou o pé de Yobuié, mas como era muito pequena ainda, não conseguiu comer mais que o dedão. Seu pai ficou paralisado de dor. Ela então chamou seus irmãos para ajudar a comer seu pai.
E ferozmente eles tentaram comer Yobuié, mas não conseguiram nem mesmo engolir metade de seu pé com suas gargantas pequeninas de filhotes.
Chegou então sua mulher, que conseguiu, cheia de raiva, devorar Yobuié até a metade das pernas.
Então deu lugar à sua sogra, cobra gigante, que num só bote devorou seu genro até a cintura. Quando o sogro chegou, antes de começar a comer seu genro, fez as devidas reprovações ao gesto de Yobuié. Este não conseguiu responder e, envergonhado, ficou de cabeça baixa.
Foi então que chegaram seus parentes da terra, preocupados com sua demora. Como fazer para livrar Yobuié? Pensaram eles. Se atirarmos flechas nas cobras, acabaremos por matar ele também.
– Ah, já sei, disse um deles. Vamos esmagar o rabo da cobra, ela acabará por abandonar Yobuié.
E assim foi feito. A cobra ferida fugiu e os homens puderam ainda salvar Yobuié e levar ele para a aldeia. Mas daquele dia em diante, ele ficou paralítico dos ombros para baixo.

Pouco tempo depois, sentindo-se enfraquecido e próximo da morte, Yobuié reuniu em redor seus parentes e amigos.
– Enquanto eu estava debaixo das águas, as cobras me ensinaram a preparar e tomar esta bebida que é o cipó. Eu não quero morrer sem passar para vocês o meu segredo:
– Corram à mata e juntem todos os cipós que encontrarem.
E todos partiram, e quando voltaram, vinham carregados de muitas espécies de cipós.
Yobuié examinou cada cipó, dizendo – Não é este! Até que por fim ele gritou – É esse aqui! Por sorte haviam encontrado um pedaço do verdadeiro cipó.
Yobuié disse ainda: – Isto não é suficiente. Tragam-me agora as folhas de todas as árvores pequenas que vocês encontrarem na mata.
E a busca recomeçou. O doente examinava com muita paciência todas as folhas que eram trazidas e suspirava: – Não, ainda não é esta!
Até que um dia ele gritou: É esta aqui! E ele mostrou a folha do arbusto que chamamos Cauá (ou chacrona).
Nosso antepassado amassou então os talos do cipó, meteu-os numa panela com água e juntou as folhas e pôs os dois para ferver.
Após o cozimento, era coado e posto para esfriar. À noite,eles se reuniram todos, beberam a bebida e tiveram muitas mirações!
Ao saírem daquele estado provocado pela bebida, Yobuié disse:
– Eu tive a miração da minha morte bem próxima.
E três dias depois Yobuié morreu.

 

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E foi depois desse dia que todos nós passamos a beber cipó em grupo. Pois é pelo poder do canto que mantemos distância de nós mesmos, de maneira que podemos ver na miração todas as coisas do presente, passado e futuro e do além, que não podemos ver com nossos olhos da carne.

 

 

CONTINUA………………..

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