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Vamos dar um bom tempo?

 

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O MANIFESTO DA TERRA

A Terra fez-me portador desta declaração que passo a vocês, e que tem o objetivo de conscientizá-los sobre a necessidade de preservar o nosso habitat.

Senhores Seres Humanos,

Hoje acordei aborrecida, com os olhos lacrimejantes de tanta fumaça, a pele irritada, certamente porque minha capa de ozônio está furada e meu ar tem mais ácido. Percorri com estes olhos ardidos os lagos, rios e mares; e os vi mais sujos. Depois chorei, devo confessar, chorei uma lágrima incontida para aliviar meu desgosto e desespero, quando notei que meu vestido, aquele verde, estava rasgado. Eu os culpo por boa parte desses transtornos e, para alertá-los, vou até contar algumas passagens da minha vida, alguns fatos que presenciei para que vocês entendam como reajo às agressões ou circunstâncias perigosas quando delas sou vítima.

Nasci num turbilhão cósmico há quatro e meio bilhões de anos, e já um bilhão de anos depois vi surgir sobre minha pele, ainda de constituição aquosa, uma multidão de células microscópicas as quais deram origem a outras vidas que explodiram numa profusão de vida. Há uns setecentos milhões de anos surgiu o sexo que acelerou a evolução biológica. Apareceram os vermes, as águas-vivas, os crustáceos e os vertebrados. Todos aquáticos. Algumas partes de minha epiderme secaram e se povoaram de insetos. Mais vertebrados. Começaram a chegar os mamíferos.

No torvelinho de minhas recordações, lembro os continentes separando-se, o nascimento do Atlântico, o frio arrepiante provocando a gênese da Antártica. Ao longo dessas modificações estruturais, que eu sofria, e da lenta passagem das eras geológicas, ocorreram momentos de necessários ajustamentos nas engrenagens vitais, o que me levou a exterminar muitos tipos de vida e criar outros tantos. Há quatro milhões e meio de anos, por exemplo, presenciei o momento em que vocês foram criados. Levantaram-se do pó, desceram das árvores e ficaram de pé. Acompanhei, então, sua evolução até os dias de hoje. Controlaram o fogo, complicaram a linguagem (até hoje falam demais), inventaram a agricultura e o anzol, disseminaram-se pelos continentes, trabalharam a cerâmica, fundiram o cobre, e começaram a escrever. Extasiei-me com seus estudos de Astronomia, deleitei-me ouvindo Homero declamando a Odisséia, e gostei das pregações de Lao- Tsu, Confúcio, Buda e Zoroastro. Nesse mesmo tempo, acompanhei a escrituração do Velho Testamento, em hebraico; ouvi Pitágoras dizer que tudo é número e que a natureza é harmoniosa (achei lindo!); testemunhei as idéias geniais e loucas de Platão, Aristóteles, Eudóxio; vibrei com a geometria de Euclides; me extasiei com Aristarco de Samos, quando afirmou que eu girava em torno do Sol.

Depois da Idade Média e das viagens de Marco Pólo, Colombo, Cabral, Cortez, Magalhães e outro sonhadores sobre meu corpo_ houve o início de uma seqüência de singulares descobertas científicas: Copérnico assombrou o mundo quando publicou Das revoluções;

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Galileu, a bordo de sua boemia, aproximou o céu de mim; Kepler demonstrou a elipse dos meus irmãos planetas; Isaac Newton compreendeu a força da gravidade e viu a luz dividir-se. Fiquei impressionada quando Charles Darwin disse quase tudo certinho sobre sua própria evolução, a qual eu já assistira. Mendel encontrou as chaves da genética e hoje vocês a manipulam brincando de Deus; os Curie, Planck, Becquerel abriram o túnel ao coração do átomo, permitindo a Bohr e Wheller fissioná-lo teoricamente. Enquanto isso, Einstein deformava o espaço-tempo e fundia numa união xifópaga a energia e a massa. E dessa maneira vocês fertilizaram o chão onde floresceria a rosa de Hiroxima.

Confesso que não pude deixar de rir quando fizeram um piquenique bobo na Lua e começaram a jogar no espaço geringonças eletrônicas, talvez pensando em deixar-me. Não farão falta, podem crer. Como me fariam falta se apesar de todos os conhecimentos que vocês vêm acumulando, enfeiam-me e me adoecem com suas atitudes devastadoras? Aceito as suas réplicas quando acusam que também poluo e degrado meu corpo com meus vulcões, terremotos, tempestades. É verdade, mas o faço dentro de limites estabelecidos para a continuidade da vida, de suas próprias vidas inclusive, coisa que vocês não sabem e não respeitam sequer.

Sei que sua Ciência é suficiente para diminuir tanta ignorância, pobreza e miséria, que contribuem de forma maciça para a minha deterioração; e é suficiente para usar-me criteriosamente rumo a um desenvolvimento sustentável. Mas, se continuarem o seu uso para prejudicar-me, ela não será suficiente para evitar que eu os destrua numa simples faxina doméstica. E se por acaso seu extermínio acontecer por suas próprias loucuras, como numa global poluição radioativa, química ou biológica, eu me recomporei um dia sobre seus fósseis, dando vida a outras vidas mais virtuosas. Estejam certos, ninguém deste mundo do futuro sentirá saudade de vocês, os piores inquilinos que já tive. Portanto, eduquem-se! Sinceramente, preocupadamente,

Terra.

Do livro: Os Veleiros do Infinito – pág. 14 a 16

Ano/1999

Crônicas do Planeta Azul

Autor: Iveraldo Guimarães

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