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Personagens misteriosos do Brasil

Mestre João da Luz –  O Pajé do outro mundo

Minha madrinha espiri­tual, Dona Maria Tiana, me contou a história do velho Mestre João da Luz, também chamado de João de Casa No­va, por causa da cidade em que ele apareceu lá na Bahia.

Ele foi o fundador de uma religião estranha e mágica, que foi conhecida como Linha de Jurá (Linhajurá) por volta de 1925.

Não se conhece seu verdadeiro nome, data de nascimento ou lugar preciso.

Os mais velhos diziam que Mestre João foi um caboclo que “caiu no mundo”, vagando pelo sertão e pelas matas do Norte, trabalhando e curando por vários arraiais, sem estabelecer-se em nenhum canto por muito tempo.

Segundo consta, ele era origi­ná­rio do Maranhão, de mãe índia e pai mulato.

Alto, magro, olhos puxados de caboclo, Mestre João jamais largava seu surrado chapéu de couro e o velho cachimbo.

Dormia no chão, comia pouco, não era dado a bebidas fortes e jejuava frequentemente.

Acordava bem cedo, se aprumava, enchia o pito com ervas de cheiro doce e soltava longas baforadas dizendo palavras que ninguém entendia.  Depois tomava seu café e ia até a igreja mais próxima.

Homem de oração, João da Luz rezava du­ran­te horas sem mexer uma pestana sequer.

Até parecia que nem respirava mais. Era muito devoto dos santos católicos e falava sempre das coisas da Bíblia, que conhecia de memória.

Vestia-se simplesmente, gostava de andar com o pé no chão e trazia um saquinho de couro pen­durado no pescoço, que jamais tirava.  Um secreto talismã encontrado em uma gruta, se­gundo a tradição.

Falava mansamente, olhava fixo nos olhos das pessoas, impunha respeito pela presença e carisma que dele emanava.

Não teve professores ou mestres vivos.

Recebeu a religião do  Jurá dire­tamente dos amigos do Outro Mundo.

Conta-se que ainda moço, tendo adormecido na mata ao lado de uma cachoeira, foi levado a um misterioso reino do astral e ensinado pelos habitantes de lá.

Este mundo encantado foi chamado por ele de “Império”.

Ali viviam muitos índios em aldeias enormes, com ocas bastante altas e multiformes.

Algumas eram construídas de material luminoso, onde pareciam brilhar pedras coloridas como a turmalina e a esmeralda.

Os índios também eram diferentes dos daqui.

Alguns eram verdes como folhas, outros eram dou­rados como ouro ou vermelhos como fogo.

Tinham o corpo bem grande e falavam uma língua melodiosa, que nem canto de uirapuru.

Quando despertou da visão e voltou para casa, Mestre João estava bastante assustado. Ficou amuado e doente por várias semanas.

Sua cabeça doía, não tinha fome, sede e nem sono.

Tremia sem parar, caia no chão desacordado ou corria para o mato e se enroscava nas plantas.

Sua mãe levou-o para um caboclo velho e pediu ajuda.

O curandeiro benzeu João com pena e maracá, mas de nada adiantou.

Certa noite, quan­do se co­me­morava a vés­pera dos Santos Reis (festa dos Reis Ma­gos em 06 de Ja­nei­ro), Mes­tre Jo­ão en­trou em violen­to transe den­tro de ca­sa.

Girando sem parar, começou a en­toar um canto esquisito, pediu tabaco, cachimbo e bas­tante água. Disse que estava curado e tinha uma missão espiritual pela frente.

O rapaz que virou profeta saiu de casa e iniciou sua eterna peregrinação.

Visitou pajés nas aldeias, foi atrás de benzedores, raizeiros e juremeiros no sertão.

En­trou por florestas adentro, vagou por lu­gares deser­tos e praias desconhecidas.

Foi dado como louco, beato e errante va­ga­bundo.  Anos depois, em data imprecisa, sumiu sem deixar rastro.

Apareceu de repente, já homem feito, no interior da Bahia, exercendo modestos serviços manuais nas cidadezinhas que passava.

Chamava gente aos montes fazendo sua benzeção fantástica, encantando na língua dos habitantes do Além.

Quando esteve com alguns catimbozeiros, onde conheceu gente de muita sabedoria, bebeu fartas canecas de jurema-de-feiticeiro e nada aconteceu.

Nada, nada, nem um transe sequer.

A bebida fermentada parecia água para ele.

Isto chamou a atenção de alguns adeptos, que se acercaram dele e pediram para conhecer o seu segredo.

Mestre  João, o “Pajé João” como foi cha­mado, foi mostrando aos poucos os mistérios do “Império”.

Quando ele oficiava seu culto não usava jurema ou outra bebida de poder.

Apenas acen­dia seu cachimbo e uma vela de cera de abelha, fechava os olhos e tirava um canto lá do fundo da alma.

As pessoas ficavam enfeitiçadas, camba­leavam e tremiam, recebendo em seus corpos os estranhos habitantes das aldeias invisíveis.

O Mestre João não incorporava nenhuma alma ou divindade.

Ele se iluminava e encarnava o “Império” na terra.

Por ele fluíam o poder e o saber mais antigo do mundo.

João da Luz era a porta e a chave dos mais finos arcanos.

A tradição conta que muitas coisas faladas nas reuniões, que foram batizadas com o nome de “candeias”, eram coisas proibidas para os homens comuns, gente sem moral, religião ou fé.

Assim nasceu o voto de silêncio dos iniciados pelo Mestre, aqueles que tinham ouvido as can­tigas e as palavras dos seres imortais.

A denominação “Li­nha de Jurá” nas­ceu quan­do os iniciados se ajoelha­vam aos pés do Mestre, faziam um voto de silêncio e assim se tor­na­vam juramentados ou fi­lhos de “Jurá”.

Com a morte do funda­dor, a religião foi praticada dis­cre­ta­mente, quase desapare­cendo do sertão, não fosse o zelo de alguns com­panheiros que exerciam o culto da Jurema ou Catimbó.

O passamento de Seu João foi como a sua vida: um mistério.

Certa noite, de linda Lua Cheia, embrenhou-se na mata e desapareceu do mundo dos homens sem deixar rastro, passando a habitar o mundo dos espíritos.

Foi para o “Império”, de onde olha o desenrolar de sua herança, sempre inspirando e ensinando, mas jamais incorporando nos filhos da terra.

Pois virou estrela, dizem os mais velhos, não cabendo na alma de ninguém.

O Pajé João se encantou…

Os filhos de Jurá ainda guardam a tradição, continuando a arte do Velho Mestre para a posteridade.

Muitos esperam a volta de João da Luz, que chegará no final dos tempos, liderando as tropas do “Império” na luta contra as trevas do mundo.

Viva o Jurá!

Viva o Mestre João!

Texto do JUS de Setembro

Por Edmundo Pellizari

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