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Resgate a cabula!

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Cabula é o nome pelo qual foi chamada, na Bahia, uma religião sincrética que passou a ser conhecida no final do século XIX com o fim da escravidão, com caráter secreto e fundo religioso. É também o nome de um bairro de Salvador que teve origem do Quilombo do Cabula e de um ritmo da Diáspora musical africana no Brasil, toque de percussão religioso de Angola, base rítmica do samba, música de origem sudanesa.

Vamos resgatar um pouco desta origem, digna de todo nosso respeito e veneração.

Na época da escravidão, houve um sincretismo afro-católico, principalmente nas áreas rurais da Bahia e do Rio de Janeiro, denominado Cabula. Segundo pesquisas de historiadores, refere-se aos rituais negros mais antigos, envolvendo imagens de santos católicos sincretizados com os Orixás, herança da fase reprimida nas senzalas dos cultos africanos, onde os antigos sacerdotes mesclavam suas crenças e culturas com o catolicismo para conseguirem praticar e perpetuar sua fé. Quando no final do século XIX ocorre a libertação dos escravos, a Cabula já era amplamente presente como atividade religiosa afro-brasileira. Este sincretismo foi mantido após a anunciação da Umbanda em 1908 pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas.

No Rio de Janeiro de então e antes da origem oficial da Umbanda, eram comuns práticas afro-brasileiras similares ao que hoje ainda se conhece como Cabula e Almas e Angola. Cremos que o surgimento da Umbanda forneceu as normas de culto para uma prática ritual mais ordenada, orientada para o desenvolvimento da mediunidade e na prática da caridade com Jesus em auxílio gratuito a população pobre e marginalizada do início do século passado.

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Religiões no Brasil

A partir de pesquisas em todo o território nacional, Roger Bastide, um dos grandes estudiosos do assunto, fez uma espécie de mapa das religiões africanas no Brasil. De acordo com o mapa, todo o Norte do país, da Amazónia à fronteira com Pernambuco, foi marcado pela influência indígena. Isso é ainda evidente na «pajelança» do Pará e da Amazónia, no encantamento do Piauí e no catimbó das demais regiões. No meio dessa grande área de influência indígena, criou-se uma espécie de ilha onde os africanos conseguiram marcar presença. É sobretudo em São Luís do Maranhão que escravos originários do Daomé deixaram traços das suas religiões no tambor de mina.

No resto do Nordeste foi muito marcante a contribuição dos Ioruba, povo de origem (sobretudo) nigeriana que conseguiu reconstruir no cativeiro toda a estrutura religiosa tradicional. É o que ficou no “xangô” de Pernambuco, Alagoas e Sergipe e no “candomblé” da Baía, explica o padre e missionário comboniano Heitor Frisotti, que estudou a fundo a relação entre o candomblé e o cristianismo.

No Rio de Janeiro, até ao início do século xx, houve influência de duas nações: a Ioruba, que cultuava os orixás, e a Banta, cujo culto é conhecido sob o nome de cabula. A macumba surgiu da introdução de determinados orixás e ritos iorubas na cabula. De acordo com a explicação do padre Frisotti, a religião banta não era muito estruturada: não tinha uma classe sacerdotal forte, como a dos Iorubas, nem cerimónias ricas como o candomblé. Por isso, a macumba adaptou-se com maior facilidade à estrutura urbana da grande cidade. Hoje está mais presente no Rio de Janeiro e São Paulo.

A grande cidade produziu também outra religião, a umbanda, verdadeira síntese brasileira de quase todas as expressões religiosas populares produzidas até hoje, do catolicismo popular ao espiritismo kardecista, do candomblé à macumba. Une, pois, o elemento europeu, o indígena e o africano.

Ritual

Em sua obra Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africanos – Rio de Janeiro. Ed Senac Rio, 2005, Nei Lopes registra sobre o culto Omolokô e o culto Cabula. Sobre a cabula, é relatado:

“A Mesa e o Santé – a Cabula é uma confraria de irmãos devotados à invocação das almas, de cada um dos kimbula, os espíritos congos que metem medo. Também se dedica à comunicação com eles por meio do kambula, o desfalecimento, a síncope, o transe enfim. Toda confraria de cabulistas constitui uma mesa. O chefe de cada mesa é o embanda, a quem todos devem obedecer. Cada embanda é secundado por um cambone. A cabula é dirigida por um espírito, Tata, que encarna nos camanás, iniciados. Sua finalidade é o contato direto com o Santé, o conjunto de espíritos da natureza que moram nas matas. Por isso, todos os camanás devem trabalhar e se esforçar para receber esse Santé, preparando-se mediante abstinência e penitências. Cada um dos espíritos que formam o Santé é um Tata. Todo camaná tem e recebe seu Tata protetor, seja ele o Tata Guerreiro, o Tata Flor de Carunga, o Tata Rompe Serra, o Tata Rompe Ponte. Na mata moram os Bacuros, anciãos, antepassados, que nunca encarnam. A reunião dos camanás forma a engira (…)
Omolocô – O omolocô é um ramo da cabula, da mesma forma que a cabula é um ramo do omolocô, ciência dos antigos nganga-ia-muloko, que controlavam a maldição dos raios. O omolocô tem Zambi como Entidade Suprema. E cultua entidades como Canjira, o senhor dos caminhos e da guerra; Quimboto, o dono da varíola e das doenças; Caiala, senhora do mar; Pomboê, dona dos raios; Zambanguri ou Sambariri, senhor do trovão;Quiximbi ou Mamãe Cinda, dona das águas doces.
No Omolocô todo pai é um Tata; seus auxiliares são os cambones; todo filho é um caçueto; e toda médium, intermediária entre o Santé e o mundo dos vivos, é uma cota. E todos são malungos, amigos, companheiros.
A bandeira do Omolocô é verde, atravessada em diagonal por uma linha branca e com uma pena branca no centro (…) O camutuê, cabeça, do futuro caçueto não será raspado, recebendo apenas uma pequena tonsura (…)”

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Influencia na umbanda.

A Cabula, segundo pesquisas refere-se aos rituais negros mais antigos, envolvendo imagens de santos católicos, herança da fase reprimida do Candomblé, onde os negros mesclavam crenças e culturas.

Talvez a própria Umbanda, tenha herança na Cabula, pois mantém forte a presença do Orixá em sua pratica doutrinária.
No Rio de Janeiro, antes mesmo de Zélio F. de Moraes incorporar o Caboclo Sete encruzilhadas no ano de 1908, já era bastante comum à prática dos rituais Afros similares aos que conhecemos hoje como Cabula, Omolocô e Almas e Angola. Talvez com o surgimento da Umbanda, tenha-se obtido uma maior organização ao que se refere ao desenvolvimento mediúnico, a prática da caridade e o auxílio ao nicho populacional menos favorecido.

Cabuleiros

Segundo Roger Medeiros o temor e, conseqüentemente, a perseguição à cabula vêm lá de trás, ainda por ocasião da escravatura, quando ela foi usada pelos negros como força revolucionária nos seus confrontos com os fazendeiros. A cabula era um ritual para abater os inimigos com feitiço, executando continuamente líderes escravagistas, especialmente aqueles que perseguiam os negros fugidos da senzala. Era, em verdade, um instrumento de luta manejado por um guerreiro invisível e intangível, de demônios constituído. O ódio era maior, principalmente, se esse feiticeiro fosse remanescente dos vindos da África.

(Segundo um dos maiores especialistas em assuntos da África, o jornalista polonês Rysard Kapuscinski, os povos africanos são regidos por forças sobrenaturais. São forças concretas, espíritos que têm nomes e encantos. São eles que definem o curso e o sentido da vida, sentenciam o destino de cada um e tudo decidem).

Realmente esse sentido de magia afro, guardadas, evidentemente, as devidas distâncias, tem tudo a ver com a nossa cabula, cujo ritual nos é contado agora por um antigo adepto, João de Deus Falcão dos Santos, 53 anos, morador de Itaúnas, mestre do Ticumbi, mas criado dentro de uma mesa de Santa Maria (a própria da Cabula):

– Começava a cabula com o cambone, que é o secretário do cabuleiro, forrando o chão com uma toalha branca. Colocava os santos sobre ela, botava os cordões e também as facas. Os participantes amarravam uma fita branca na cabeça. O cabuleiro era quem fazia a sessão, sempre à noite, pois a noite traz segurança e tranqüilidade aos espíritos. O cabuleiro trabalhava nela e o cambone seguia as suas ordens. O povo da mesa só cantava e rodava.

– Divino vai, Divino vai, Divino vai/Eu vou dar o meu licaço (uma roda)/O cambucito vai embora/eu vou dar o meu licaço/é o santé, o caboclo que está no corpo de fulano. Aí o pessoal da roda fazia os pedidos. O cabuleiro receitava para tratar de doenças. A primeira parte da cabula era só para fazer o bem, como a cura dos doentes. Depois entrava a parte para fazer o mal.

Aí, diz João, o cabuleiro trabalhava com a parte do Satanás. Incorporava nele só gente brava. Vinham os pedidos para fazer mal aos desafetos. Recebido o pedido, o cabuleiro ia para o mato fazer o serviço, enquanto que o povo da mesa cantava e fazia novamente a roda. Ele voltava com o corpo envolvido em cipó e cheio de espinhos. Nesta hora, alguém tombava em algum lugar – garante João, com toda convicção ainda de antigo devoto da cabula.

Manter o segredo sobre o ritual era como uma lei para não ser desobedecida nunca pelos seus adeptos. Há inúmeras histórias de adeptos da cabula presos e torturados pela polícia, mas que jamais revelaram os segredos de seus rituais. A longevidade da cabula andou, inclusive, por conta desse pacto da sociedade negra para com a sua religião, segundo o historiador Maciel de Aguiar. Mas Maciel divide em dois momentos distintos a cabula: uma em que ela mantinha a chama revolucionária e outra servindo às rixas entre suas próprias comunidades.

Sobre os casos das rixas, João Falcão também testemunhou vários e conta um que nunca lhe saiu da memória:

– Houve um ponto que foi um confronto entre duas mesas de cabula. Uma de Santa Maria (a mais freqüentada) e outra de Santa Bárbara (de menor número de adeptos). Eu estava na mesa de Santa Maria. Era um cabuleiro querendo matar o outro. Um chamava-se Sebastião e o outro Zé Gonçalves, mas esse era mais conhecido com Zé da Mesa de Santa Bárbara.

– Quando estava acabando a sessão na de Santa Maria, apareceu uma cobra no meio da mesa. O cabuleiro ordenou ao seu cambone que não deixasse ninguém matar ou tocar nela. Pegou uma zema (areia) e soprou em cima da cobra, dizendo que foi o Zé da Mesa de Santa Bárbara quem havia enviado a cobra para matá-lo. Colocou levemente a mão sobre ela. E ela morreu logo em seguida.

– Depois de encerrado a sessão da cabula, ele convidou os participantes a seguirem com ele para a beira do rio, a fim de apreciar o corpo de Zé da Mesa de Santa Bárbara passar para o cemitério. E não é que apareceu uma canoa com o corpo do Zé? Uma grande canoa de pequi, com adeptos da mesa de Santa Bárbara, em silêncio, trazendo o defunto do cabuleiro inimigo para ser enterrado no cemitério de Itaúnas.

Era um tempo que João classificou de muito feitiço, com o que concorda Maciel (responsável pela maior parte das informações dessa reportagem). Mas ai nós já estamos em meados do século XX, quando a cabula passa a sobreviver com outros propósitos. Mas o seu começo foi realmente o de servir à luta pela libertação dos escravos. Sua eficiência foi tamanha nesta etapa que o governo da Província, instigado pelo padre da região, Duarte Pereira Carneiro, instituiu a guerrilha de São Mateus para o extermínio da cabula.

Segundo ainda Maciel, essa guerrilha remanejou para São Mateus capitães do mato de outras regiões do Pais. Entre eles veio um dos mais temidos, o cearense Francisco Vieira de Melo, que executou o Negro Rugério, chefe do Quilombo de Santana. Mas escaparam dele outros líderes revolucionários, entre eles Benedito Meia Légua e Clara Maria do Rosário, que só seriam mortos depois da ida à região do bispo diocesano do Estado, d. João Batista Correia Nery.

Mas o bispo só chegou lá depois da abolição da escravatura, movido pelo momento por que passava o país, ainda tomado pelo alvoroço religioso-fanático de Antônio Conselheiro no sertão da Bahia. Desconfiavam os dirigentes católicos da terra que este mesmo fanatismo do sertão baiano seria transportado para a região do vale do Cricaré, onde existiam, na época, cinco mil escravos libertos.

Por esse tempo, a cabula havia crescido muito, tinha deixado de ser apenas religião dos negros fugidos, passando a ser, também, dos negros libertos e praticamente de toda a população negra. A partir desse novo contingente de freqüentadores, ela dedicou-se também ao culto aos seus heróis revolucionários, com a sistemática encarnação nos cabuleiros dos espíritos revolucionários de Benedito Meia Légua, Negro Rugério e Maria Clara do Rosário.

Por esse período da grande afluência dos negros a cabula, que vai da abolição da escravatura (1888) ao inicio do século XX, passando pela transição da Monarquia para a República, o bispo d. João Batista Nery conseguiu que o governo pusesse em execução a maior perseguição policial à cabula, sob suspeita, novamente, de que ali estaria também para surgir um novo Canudos, com outro fanático à frente do tipo de Antonio Conselheiro.

A intervenção do bispo chegou ao ponto de fazer o governo considerar a cabula uma atividade criminosa. E a cabula defendeu-se caindo na clandestinidade, disfarçando sua atividade na prática do espiritismo, que era tolerado pelas autoridades policiais. Essa situação durou até os anos 20, quando veio a surgir, no sertão de Itaúnas, um branco, atuando também na mesa de Santa Maria. Tratava-se de um fazendeiro, de origem portuguesa, de nome Duca Tora.

Ficaria famoso como curandeiro, milagreiro, mas que, segundo o seu parente Lauro Vasconcelos Nascimento, de 87 anos, todo mundo conhece em Itaúnas como “seu Dodozinho”. Duca Tora era um cabuleiro que jamais tratou do mal na sua mesa de Santa Maria. Acabou sendo por isso usado pela elite para incentivar ainda mais o combate à cabula dos feiticeiros negros.

Em 1941, morreria Duca Tóra e as populações da região voltavam a sentir a novamente a presença forte da cabula feita pelos negros. Era comum, inclusive, nesta época, se esconder a vítima do feiticeiro como forma de salvar-lhe a vida. Já era final dos anos 40, para inicio dos anos 50, quando finalmente o governo enviou à região levas de policiais para dar fim à cabula, como desejavam também autoridades de São Mateus e, principalmente, de Conceição da Barra.

À frente seguiu o mais temido de todos os oficiais da história da PM: o major Djalma Borges, que promoveu impiedosa matança de feiticeiros, conhecidos na região como cabuleiros. Não deixou sequer um único cabuleiro vivo. Extinguiu, literalmente, a cabula, cujo segredo do ritual não chegou a conhecer, pois lhe negaram todos os cabuleiros, muito dos quais debaixo de sessões de torturas, como mais tarde o próprio oficial revelaria aos seus superiores. O que leva a crer que a cabula acabou, mas levou consigo todos os seus segredos, pelos quais, anos a fio, combateram diversas gerações das elites rurais do Estado.

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